Prédio histórico na Calógeras abrigou poder paralelo em Campo Grande

Por: CGNews/Redação

Fachada do prédio histórico na Avenida Calógeras, no Centro de Campo Grande. (Foto: Marcos Maluf).

Todos os dias, muita gente passa em frente ao prédio na Avenida Calógeras, quase esquina com a Afonso Pena, sem imaginar que o local histórico guarda uma passagem curiosa da história da cidade. Hoje, sede da Loja Maçônica Oriente Maracaju, o espaço já foi cenário da implantação de governo paralelo durante a Revolução Constitucionalista de 1932.

Foram pouco mais de 70 dias, mas o suficiente para fazer com que entrasse para a história de Campo Grande e de Mato Grosso do Sul. Chamado “Palácio de Maracaju” ou até “Governo de Maracaju”, o real nome que teve o espaço é cercado por desencontros e divergência. Fato é que, o que se passou por ali ainda desperta curiosidade.

Um Governo que Nunca Existiu – A historiadora Madalena Greco, do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, explica que o termo “Governo Maracaju” é fruto de confusões históricas.

“Esse nome nunca existiu oficialmente. O que houve foi a transferência da sede do governo paralelo para a Loja Maçônica Oriente Maracaju, mas isso durou pouco tempo, no final da Revolução. Antes, o comando funcionava onde era a Prefeitura de Campo Grande”, explica.

Espaço foi tombado patrimônio de Campo Grande. (Foto: Marcos Maluf)

Ela reforça que não havia um governo do Estado de Maracaju, como muitos acreditam. “Era um governo paralelo ao de Cuiabá, que funcionou por cerca de 70 dias. Não havia um estado oficialmente criado, muito menos um palácio. O nome só aparece em 1934, num abaixo-assinado que pedia a criação do Estado de Maracaju”, detalha.

O Cenário Político de 1932 -Durante a Revolução Constitucionalista, forças políticas do sul de Mato Grosso, atual Mato Grosso do Sul, apoiaram o movimento iniciado em São Paulo contra o governo provisório de Getúlio Vargas. Sob liderança de Vespasiano Martins, o grupo instalou uma administração paralela em Campo Grande, enquanto Cuiabá seguia sob controle legalista.

Estátua com símobo maçom foi posicionada na entrada na loja.

O historiador Eronildo Barbosa detalha que a maçonaria teve papel fundamental nesse episódio. “A maioria dos revoltosos era maçom ou ligada à maçonaria. Por isso, a loja se tornou o ponto de deliberação. Mas era uma sede improvisada, não um palácio. A Revolução durou 73 dias, até a rendição paulista e a prisão dos líderes locais”, relata.

Após a derrota, Vespasiano fugiu para o Paraguai e o prédio voltou a funcionar apenas como templo maçônico.

Arquitetura e Patrimônio – Construída entre 1923 e 1924 pelo engenheiro Camillo Boni, a Loja Maçônica Oriente Maracaju é exemplo do ecletismo arquitetônico, com composição simétrica, coroamento ornamentado e símbolos geométricos da maçonaria. Tombada como patrimônio histórico em 2007, permanece como um marco da cidade.

Madalena lembra que o contexto urbano da época ajuda a entender a importância do prédio. “Campo Grande estava em crescimento, impulsionada pela chegada da ferrovia e dos quartéis. Surgiram hotéis, armazéns, farmácias, pensões e casas em estilo eclético, projetadas por construtores como Manuel Seco Tomé. O prédio da Loja Maçônica reflete esse momento de transformação”, destaca.

Placa de 2007 ajuda na confusão sobre a existência de um Governo de Maracaju.

Lenda ou História? Apesar das divergências sobre o nome “Palácio Maracaju” ou “Governo de Maracaju”, o episódio permanece como parte do imaginário campo-grandense. “Independente do nome, o fato é que aquele prédio abrigou, mesmo que por pouco tempo, decisões que marcaram a história política da cidade”, destaca Eronildo.

Hoje, quem passa apressado pela Avenida Calógeras talvez nem imagine que, por alguns dias, aquele prédio foi símbolo de um sonho separatista que não chegou a se concretizar, mas que garantiu ao endereço um lugar definitivo na memória de Campo Grande.

“Foi um momento decisivo para Campo Grande. Mostrou a força da região sul e abriu caminho para discussões que, anos depois, levariam à criação do Estado de Mato Grosso do Sul”, completa Madalena.

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